“A Paraíba está na rota do narcotráfico no NE”
Segunda, 28 de Abril de 2003 07h59
Pelo ar, pela terra e pelo mar. Os narcotraficantes já dominam todos os caminhos da Paraíba e fazem da BR-230 a espinha dorsal da distribuição da droga para o Nordeste. Muito mais do que simples rota do tráfico, o Estado está se tornando também um dos grandes produtores de maconha, cocaína e crack. Os indícios da existência de laboratórios usados na produção de drogas foram revelados ao deputado federal Luiz Couto (PT) durante a CPI do Narcotráfico realizada na Assembléia Legislativa há cerca de dois anos.
A droga entra pelo mar, na região que vai desde Mataraca até Pitimbu, área em que a fiscalização quase inexiste. A travessia é feita através de barcos. Pela terra, a droga ultrapassa as fronteiras seguindo as rodovias estaduais, principalmente a PB-008, considerada atualmente a rota do crime. De avião, os traficantes pousam em pistas clandestinas e oficiais espalhadas no interior do Estado e usam fogos de artifícios para avisar da chegada. Os caminhos da droga e os "braços" do crime organizado começaram a ser revelados em entrevista exclusiva concedida na última segunda-feira pelo deputado federal Luiz Couto (PT) aos jornalistas Eduardo Carneiro e Eloise Elane. Alguns dos principais trechos da conversa revelam um pouco da caixa-preta do submundo do crime organizado na Paraíba.
O negócio lucrativo, ilegal e perigoso, está se firmando no Estado com a conivência de empresários e autoridade. A seguir, um pequeno mergulho no mundo do crime organizado que revela um pedaço da face obscura de uma Paraíba pouco conhecida.
Instalada a CPI do Narcotrá-fico, apurados os fatos, como o Sr. avalia, agora, a resistência do Governo a realização desse trabalho? Qual era o interesse do governo ao tentar obstacular a CPI?
- Primeiro, a nossa CPI queria investigar o crime organizado, o narcotráfico, o grupo de extermínio, roubo de cargas. Era uma CPI mais ampla, porque tínhamos a impressão de que o crime organizado tem diversos tentáculos. Hoje ele atua tanto na área de tráfico de armas, como tráfico de drogas, exploração sexual de crianças e adolescentes, e roubo de carro. Enfim, uma ação articulada. Até grupos de extermínio também atuam no sentido de crime de pistolagem. Nos queríamos investigar isso. Havia uma preocupação de não ampliar essa ação. A razão, isso é que precisa ser explicada. O argumento para não ampliar o raio de ação da CPI era que não havia fator determinante. Ora, o fato estava mais que determinado. Outro caso é que nós tivermos duas vezes o número regimental de assinaturas postas no requerimento que pedia a CPI, mas deputados foram pressionados a retirar seus nomes. No momento em que um se dizia: olha tem que tirar o nome porque não podemos dar palanque para Luiz Couto. Outra vez, conseguimos dizer da tribuna que um deputado estava retirando a assinatura, outro veio e anunciou que também estava retirando. Então, houve pressão. Não sei a razão, mas aqueles que tentaram impedir a CPI é que devem explicar para a sociedade as razões por que não queriam que ela fosse instalada. O que nós sabemos é que o crime organizado funciona com muito destaque em todo o Estado da Paraíba e, como está espalhado por todo o Estado, talvez pudesse atingir algumas pessoas que têm alguma relação com algumas autoridades.
O Sr. também presidiu a CPI da Prostituição Infantil, em que aconteceram até uns fatos pitorescos, como o desaparecimento de páginas de depoimentos. Que experiência o sr. levou da CPI da Prostituição Infantil para a CPI do Narcotráfico?
- Muito mais experiência no sentido de apurar e investigar, tivemos uma colaboração muito grande das entidades que compunham o Fórum em Defesa da Vida Contra o Narcotráfico e o Crime Organizado. A própria Igreja Colaborou nesse sentido. A Polícia Federal teve uma participação muito efetiva. Infelizmente não tivemos colaboração da Polícia Militar e Polícia Civil. E nós ficamos tristes porque havia até uma sistemática de não responder aos requerimentos que nos fazíamos. Tentaram desqualificar, dizendo que na Paraíba não havia narcotráfico. E tinha até um ex-secretário que dizia que tinha pequenos fumantes de maconha, mas não havia tráfico de drogas. E nós mostramos no final que, na Paraíba, não apenas tem tráfico de drogas, mas tem de armas, roubo de cargas, grupo de extermínio entre a Paraíba e Pernambuco como em diversos municípios do Estado onde os grupos de extermínio tem presença constante. Tivemos o apoio de policiais civis e militares que queriam colaborar.
O sr. traça um quadro gravíssimo: as denuncias existem, tem como se chegar as provas, mas as próprias autoridades barram, porque elas estão envolvidas com o crime. O Sr. vê perspectiva de mudança nesse quadro?
- Primeiro é preciso mudar o sistema de Segurança desse país; é preciso ter polícia de inteligência preparada, capacitada, para investigar toda a situação e dar condições para que o Estado possa montar um plano de Segurança Pública que se antecipe ao crime, ou seja, evitando que o crime aconteça. É preciso ter uma polícia de inteligência, que possa apurar os fatos, fazendo mapa da realidade criminosa, mapa do delito, para se saber onde acontece a ação daquele tipo de crime, para que se faça uma ação planejada. O grande problema é que temos policiais mal pagos; não temos uma carreira onde o policial seja reconhecido. Policial na Paraíba é tratado como menino de recado. Temos um serviço na Paraíba que é o Grupo de Atividades Especiais, que tem uma tarefa muito importante para eventuais problemas de seqüestro. Mas o GAE não é valorizado como deveria ser. É preciso ter vontade política, é preciso limpar, tirar a parte podre da Polícia Militar e da Polícia Civil. Acontece, que quando um problema ocorre, essas pessoas são afastadas, mas logo conseguem retornar através de medida judicial. Aí há uma falha no inquérito administrativo e no inquérito policial. Maria Rodrigues, envolvida com o traficante Fernadinho Beira-Mar voltou. Ela esta incorporada agora a Polícia Civil. Todo aquele processo dela foi mal feito, e ela voltou pela via judicial.
No relatório da CPI da prostituição, o Sr. chegou a colocar no relatório nomes das autoridades envolvidas, inclusive colegas parlamentares do Sr. Essa outra CPI do Narcotráfico teve dois relatórios, sendo um sigiloso e outro aberto. O relatório sigiloso foi para facilitar as investigações?
- Com certeza. E vocês já perceberam que esse relatório esta trazendo frutos. Inclusive, trouxe depoimento de um ex-pistoleiro que se não tivesse morrido teria contribuído e muito para apurar a realidade. Ele colocou como funcionava o crime organizado na região da Paraíba e Pernambuco. O modus operandi, como era feito, quem estava envolvido, quem financiava. E ele falou da chacina de Alhandra, que aconteceu em maio de 1999, em que parte desse grupo foi à cadeia pública de Alhandra e assassinou oito policiais, e alguns outros que presenciaram a chacina e foram colocados como testemunha. Eu tive informação do promotor que na medida em que eles iam saindo da cadeia, iam sendo assassinados ou então desapareciam, ou seja: não existe mais testemunhas. Esse grupo tem uma composição de aproximadamente 50 pessoas, entre policiais civis e militares da reserva, e da ativa, agentes penitenciários, vigilantes, comerciantes, pistoleiros, capangas. O mais grave é que parte desse grupo de extermínio também esta associado a outra realidade, na Paraíba, que são as milícias privadas. O resultado do relatório sigiloso esta aparecendo agora. Entreguei cópia às autoridades, entreguei cópia da fita com depoimentos de Luiz Tome, que colaborou com a CPI. Nós mantínhamos essa fita para segurar a vida dele, porque no momento em que ela fosse divulgada, que ela saísse, Luiz Tome seria eliminado. Aí tivemos a possibilidade que o Ministério Publico pudesse ouvi-lo. Infelizmen-te a outra parte esta solta, inclusive tem um deles que vive andando abertamente em Timbaúba, embora tenha prisão decretada, mas ninguém vai lá prender porque tem toda guarida.
Voltado as tentativas de obstacular a CPI, pelo Governo do Estado. ficou comprovada a participação dessas pessoas no crime?
- Normalmente as pessoas não citam nomes, porque têm medo de revelar. Nem na CPI da Exploração Sexual, quando se perguntava a menor alguma coisa, ela dizia que saiu com um juiz, mas não dizia o nome. Não dizia porque já saía ameaçada de represália caso contasse alguma coisa. Há um clima de terror grande e as pessoas têm medo, porque muitas vezes o delegado que esta ali para investigar chega lá a pessoa é mal recebida, ou ele não quer tomar o depoimento, ou diz: olha eu vou tomar o depoimento, mas a pessoa vai saber, como aconteceu em Pedras de Fogo, onde ele disse que ia tomar depoimento mas afirmou que o Cabo César iria saber. Não é possível um delegado estar com uma pessoa presa, que cometeu crime, e chegar o Cabo César na Delegacia, entrar lá e matar o preso na frente do delegado e o delegado não prender. O que significa isso? O Cabo está preso na 4ª Companhia, mas estou informado, que ele tem todas as regalias, porque? até agora ninguém me deu um explicação. Para mim isso não é prisão.
Há pessoas do narcotráfico que são treinadas na Polícia da Paraíba.
- Como eu disse: o que nos verificamos é que as pessoas fazem essa análise. E verificamos, que tem casos aqui em que tivemos pistoleiros ou pessoas ligadas ao crime organizado que foram presas, mas no momento em que elas estão presas, telefonemas e mais telefonemas chegam à delegacia e diz: olhe, esse aí é meu. Eu diria autoridade em geral, do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Isso mostra que o Poder Público necessita de mudanças... cometeu crime, não importa, se é importante ou não, se é figurão, ou não, de forma que o que cometeu crime seja encaminhado as autoridades policiais para que se tome providencias.
O sr. disse que o relatório sigiloso da CPI esta dando resultado. Porventura as pessoas envolvidas não sabem o que tem nesse relatório e não estariam atrapalhando a investigação da polícia?
- Alguns comandantes solicitam da sua região informações sobre a ação do crime organizado. E acho um aspecto importante. Na CPI, quando convoquei um comandante de uma companhia, ele dizia que a gente sabia mais que ele. Na realidade, eu, que não tinha um setor de inteligência, mas as pessoas traziam para mim informações. A polícia tem condições de fazer isso. A Polícia Militar da Paraíba fez um mapeamento do crime em João Pessoa, quais os pontos mais vulneráveis. E eu pedi esse documento ao sub-comandante e ele disse que não tinha, ou seja mentiu para a CPI.
A CPI pediu punição para essas autoridades que mentiram para a CPI, como esse sub-comandante?
- Algumas pessoas foram colocadas como autoras de crime de falsidade ideológica, mas como estes vinham como convidados não teria razão. Mas a sociedade vai cobrar. Hoje tudo está mais que claro: Na Paraíba não existe apenas tráfico de drogas como consumo, mas tráfico como produção mesmo. E está comprovado que o grupo de extermínio tem ligação com o tráfico de armas, com tráfico de drogas, roubo de cargas. Digo que a Polícia Militar da Paraíba é constituída de heróis, porque viver com salário e falta de condição que tem e ainda trabalhar para dar um pouco de tranqüilidade ao povo. Agora, é necessário fazer uma limpeza, tirar policiais envolvidos com tráfico, com roubo, com espancamento de mulher, com recebimento de propina. Esses precisam ser afastados, sem direito de voltar.
O sr. falou em produção de drogas. Em que áreas e que tipo de droga é produzida aqui no Estado?
- Maconha, por exemplo,é produzida principalmente no Alto Sertão do Estado. Foram feitas várias apreensões.
Existe fabricação na PB?
- Todo traficante transforma o quilo de cocaína que compra em dez ou vinte. Para isso ele tem um laboratório. Dizem que as pessoas precisam ter uma balança de precisão, produtos que misturam com cocaína, ou a borra da cocaína, que transformam em crack e outros produtos.
Qual a rota da cocaína?
- A droga entra na Paraíba pelo mar, pela terra e pelo ar. Infelizmente não temos controle nos nossos aeroportos, alguns funcionam até de forma irregular, outros estão desautorizados mas continuam a funcionar. O radar daqui é o de Pernam-buco. Não há fiscalização. Em alguns lugares há o São João fora de época. Em outros há são João quase sempre. Nos finais de semana quando chega o avião com o traficante, o fogueteiro dispara em toda a cidade avisando que o grande traficante chegou. É hora de juntar os pequenos traficantes, intermediários e aviões, porque o grande chefe chegou e agora ele vai fazer a distribuição.
Quais são os principais municípios. Sabe-se que Patos é uma porta de entrada...
- A droga ela entra pelo mar, na região que vai desde Mataraca, até Pitimbu, porque não há qualquer tipo de fiscalização. Não se faz fiscalização, precisa apenas ter um barco para transportar o produto. Infelizmente, temos uma polícia com varias atribuições. A Polícia Federal tem que apurar o crime eleitoral, investigando uma foto que foi posta numa árvore quando devia investigar o crime organizado. Essa PB-008 é a pura rota do crime, que vai do Rio Grande do Norte, passa por aqui e vai a até Pitimbu. Tráfico de arma, de drogas? alí acontece permanentemente. Pela terra, nos temos uma rota que vem de Pernambuco pela BR-101, que vem também do Rio Grande do Norte. Tem outra rota que vai através do brejo; tem outra que vem do Rio Grande do Norte para Guarabira e dali é distribuído para Solanea e outras cidades. A coluna vertebral do crime organizado na Paraíba é BR-230, que vai de Cabedelo até Cajazeiras. Soledade, minha cidade, aparece apreensão de drogas muito grande. quando chega nas PBs, aí esta o problema. Não tem fiscalização e o escoamento ocorre de forma facilitada. Uma parte vai para Itabaiana, outra para o Vale do Mamanguape, outra para o Brejo. E na região de Patos, se faz a festa.
Geograficamente a Paraíba favorece o fluxo do trafico de drogas?
- Ela está na rota do tráfico. A geografia é boa. Um delegado já me disse que a Paraíba é um lugar tranqüilo. E muita gente que comete crimes vem para a Paraíba, moram aqui em coberturas e só quando é preso pela policia de fora é que se descobre que estão por aqui. Não é por acaso que Fernadinho Beira Mar montou aqui um verdadeiro império. Chegou aqui em 86 com o falso nome de Felipe Araújo dos Santos, casou-se com a filha de uma escrivã de policia, em Patos. Como disse um delegado, Patos não é apenas um pólo distribuidor de crime, é um pólo inseminador do crime, ou seja, lá tem uma verdadeira indústria de confecção do crime. Infelizmente com a aquiescência de policiais. As irmãs de Fernandinho Beira-Mar só foram presas, na Paraíba, por causa da atuação da Polícia Federal. Ele estava na mira para ser preso, mas conseguiu fugir. Ele considerou que um dos Estados do Brasil, em que se entregaria, seria Paraíba e Minas Gerais. Aqui ele tinha acesso à polícia, à Secretaria de Segurança Pública.
O Sr disse que na PM é uma minoria que está envolvida com o crime, e que, existem heróis que ainda conseguem trabalhar pela segurança sem salário e estrutura. O Sr. diria isso também da Civil?
- A própria delegada Maria Rodrigues afirmou ao delegado da Polinter do Rio de Janeiro, que se ela abrisse a boca e falasse sobre a Polícia Civil da Paraíba, não sobraria 10 por cento. O que verificamos é que há diversas denúncias sobre policiais civis, agentes penitenciários, carcereiros, agentes de investigação, delegados. Há denúncias contra delegados comissionados que faziam parte de grupos criminosos, dando apoio, proteção, não fazendo a investigação devida. Normalmente araques e informantes trabalham para o crime e para a polícia. Levam informações privilegiadas para os criminosos e trazem informações em troca. Ai quando eles estão gastos, não servem mais, não tem mais a devida proteção e estão expostos para a guerra entre eles, aparecem eliminados porque deram com a língua nos dentes. Agora mesmo tivemos a informação de que uma pessoa foi assassinada e servia de informante para a polícia. Mostra que há um pacto de cumplicidade e quem ca-boetar será eliminado.
O que mudou na sua vida depois das CPIS, depois dessas constatações e denuncias?
- Eu aprendi que a verdade é que nos liberta. Meu pai dizia que a verdade deve estar acima de tudo, que dizendo a verdade a gente não baixa a cabeça. Tenho confiança em Deus e Ele quer que busquemos a verdade acima de tudo. Ela pode trazer até alguns transtornos, por alguns momentos as pessoas ficam chateadas, mas depois ela vem e liberta. Por isso devemos combater sistematicamente a impunidade, a violência, a corrupção e, agora, a violência organizada. Claro que por isso a gente sofre represálias, tentativas de forjar cartas de denuncia contra a nossa pessoa, e inquérito forjados, tirando ate depoimentos de pessoas nossas. Isso tem repercussão na vida familiar e a gente fica preocupado. Mas sei que tendo confiança de que estou no caminho certo, recebo apoio de muita gente e a proteção de Deus. Agora, as ameaças crescem na medida em que você se aproxima e se aprofunda no combate ao crime.
Em algum momento o Sr. sentiu que essa ameaça chegou perto de ser concretizada?
- Quando nós começamos a apurar e ouvir policiais militares, da ativa e reformados, agentes da polícia civil e delgados começamos a ser seguidos. Tem o caso que quando nos íamos para Patos com outro sacerdote da nossa igreja, um carro na nossa frente ia com gente que apontava arma para nosso lado e o tempo todo faziam ameaças. Nós fomos verificar a procedência das placas, eram placas frias. Também recebi ameaças por telefone. Pior é quando você é acordado de madrugada e do outro lado se ouvia barulho como se fosse de metralhadora; desligavam, voltavam a ligar. Tivemos que mudar o número do telefone. O nosso telefone foi clonado. Um policial civil amigo nosso chegou a pedir que não conversássemos nada de importante pelo telefone. Por duas vezes fomos avisados a não comparecer a determinada região, onde havia uma cilada para nos pegar.
Fonte: Da Redação
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